O que a estratégia da Hasbro revela sobre como crescer de verdade
Durante muito tempo, Magic: The Gathering foi tratado como um produto sólido dentro de um nicho apaixonado. Um jogo complexo, com base fiel, relevante dentro do universo geek, mas ainda assim limitado ao seu próprio ecossistema.
Essa leitura ficou para trás.
Os últimos resultados da Hasbro deixam claro que Magic não é apenas um ativo importante. Ele se tornou o principal motor de crescimento da empresa. E isso não aconteceu por uma evolução natural do produto, nem por um aumento orgânico da base de jogadores. Houve uma mudança estratégica clara, consciente e, para muitos, desconfortável.
Em 2025, a receita de Magic cresceu de forma agressiva, atingindo um recorde histórico. Mais do que o número em si, o que chama atenção é o contexto: enquanto outras áreas da Hasbro enfrentaram retração, a divisão da Wizards of the Coast puxou o resultado para cima, com margens significativamente superiores à média do mercado. Não é um crescimento distribuído. É concentrado, direcionado e, acima de tudo, intencional.
No centro dessa transformação está a estratégia de Universes Beyond. À primeira vista, pode parecer apenas uma série de colaborações com outras franquias. Mas reduzir isso a fan service é perder o ponto principal. O que a Hasbro construiu não foi uma linha paralela de produtos. Foi um novo modelo de expansão.

Ao incorporar universos já consolidados dentro de Magic, a empresa deixou de depender exclusivamente da sua própria capacidade de atrair novos jogadores. Em vez de tentar convencer alguém a entrar em um jogo complexo do zero, ela passou a usar propriedades intelectuais que já possuem audiência, engajamento e valor emocional estabelecido.
O caso de Final Fantasy ilustra bem essa mudança. O lançamento não apenas performou bem. Ele quebrou recordes internos da própria franquia, gerando um volume de receita em um único dia que redefine o que significa um lançamento bem-sucedido dentro do jogo. Isso não é apenas um pico de vendas. É uma mudança na lógica de crescimento.

A pergunta que antes guiava o produto era relativamente simples: como vender mais para quem já joga? Agora, ela foi substituída por algo mais ambicioso: como transformar Magic em uma porta de entrada para públicos que já existem, mas ainda não estão dentro do jogo?
Essa mudança revela uma leitura que vai além do mercado de games. A Hasbro entendeu que, no cenário atual, crescer não depende apenas de melhorar o produto. Depende de conectar esse produto com atenção já existente. Construir audiência do zero é caro, lento e incerto. Acessar uma audiência pronta, por meio de parcerias estratégicas, encurta esse caminho de forma significativa.
Isso também altera o papel do próprio produto. Magic deixa de ser apenas um fim em si mesmo e passa a funcionar como uma plataforma. Um ponto de convergência entre diferentes universos, onde o valor não está só na mecânica do jogo, mas na capacidade de integrar experiências e narrativas que já possuem relevância fora dele.
Claro que essa escolha não vem sem riscos. Ao se apoiar cada vez mais em propriedades externas, a marca passa a depender de acordos, licenças e negociações que não controla totalmente. Existe também o risco de diluição de identidade, especialmente para uma comunidade que sempre valorizou o universo próprio do jogo. Parte do público já demonstra resistência, e esse atrito tende a continuar.
Mas o ponto central é que isso não é um erro de percurso. É uma troca consciente. A Hasbro está, deliberadamente, equilibrando coerência interna com potencial de escala. E, até agora, os números indicam que essa decisão está funcionando.
Para quem está fora desse mercado, pode parecer apenas mais uma movimentação da indústria de entretenimento. Mas existe uma leitura mais ampla aqui, especialmente relevante para quem está construindo um negócio.
A maioria dos pequenos negócios ainda opera com uma lógica muito centrada no próprio produto. A ideia dominante é que crescer depende de melhorar continuamente o que se vende. Isso é importante, mas raramente é suficiente.
O que a Hasbro demonstra é outra possibilidade. Crescimento pode vir, também, da capacidade de se conectar com fluxos de atenção que já existem. Em vez de competir diretamente por visibilidade, você se integra a algo que já tem audiência.
No contexto de um pequeno negócio, isso não significa fazer colaborações milionárias ou licenciar grandes franquias. Significa entender onde está a atenção do seu público, com quem você pode se conectar e de que forma o seu produto pode funcionar como ponte, e não apenas como destino final.
No fim, Magic: The Gathering não cresceu apenas porque é um bom produto. Ele cresceu porque foi reposicionado dentro de uma estratégia maior. Universes Beyond não é um desvio criativo. É uma decisão clara de expansão baseada em alavancagem de audiência.
Gostando ou não, o que está em jogo aqui não é só um card game.
É uma mudança de lógica sobre como crescer.
E ignorar isso é, no mínimo, escolher jogar um jogo mais difícil do que o necessário.